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Editora: 12min
Protesto estudantil costuma nascer pequeno e local: uma escola sem professor, uma mensalidade que subiu, uma verba que não chegou. O que define o momento atual é que essas queixas locais apareceram quase ao mesmo tempo em países sem relação direta entre si, e em cada um deles se juntaram a uma crise política que já estava em curso. Em semanas seguidas de outubro de 2026, estudantes incendiaram parte do Ministério da Educação em Tirana, levaram centenas de milhares às ruas na França e ocuparam faculdades em Buenos Aires.
Isso alcança quem lê aqui por dois caminhos. O primeiro é o custo de vida, que aparece nas três pautas: aluguel, salário de professor, preço do ensino. O segundo é a forma: os manifestantes passaram a citar uns aos outros abertamente, e o que começa em um país vira repertório em outro.
Na Albânia, os organizadores dizem que o protesto é sobre condições nas universidades, custo do ensino superior, falta de apoio financeiro e perspectiva de emprego depois da formatura. Samanta, estudante de mestrado em economia de 22 anos, disse à DW que divide aluguel com desconhecidos porque a família emigrou, e perguntou como poderia pagar um apartamento nas novas torres de Tirana com um salário de 540 euros.
Na França, o pedido é mais concreto: mais professores substitutos, turmas menores e prédios em condições de uso. Abdel, de 18 anos, contou à AFP que ficou sem professor de biologia no início do ano letivo e que o substituto, quando chegou, era professor de inglês.
Na Argentina, a exigência é que o governo cumpra uma lei já aprovada. A Lei de Financiamento Universitário de 2025 prevê reajuste de salários atrelado à inflação desde dezembro de 2023, restauração de bolsas estudantis e mais verba para o funcionamento das universidades.
Desde o fim de maio, Tirana vive um movimento antigoverno apelidado de "Revolução do Flamingo", nascido da oposição a um projeto turístico de luxo em área costeira protegida ligado a Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Por cerca de 135 dias, os protestos foram noturnos e pacíficos, com cartazes do pássaro rosa e pedidos de renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, no poder desde 2013.
Na terça-feira, 13 de outubro, estudantes convocaram um ato próprio diante do Ministério da Educação. A manifestação começou com algumas centenas de pessoas e escalou. Na madrugada seguinte, manifestantes entraram no prédio e atearam fogo; nos dias seguintes, ministérios, bancos e lojas foram atacados, e o prédio do Colégio da Europa em Tirana acabou destruído pelas chamas. Os confrontos se espalharam para Durrës, Shkodër, Lezhë, Vlora, Gjirokastër e Korçë.
Os números da repressão cresceram dia a dia. Segundo a DW, 152 pessoas foram detidas e 324 passaram a ser investigadas em três dias; a polícia informou 71 agentes feridos. O Ministério da Saúde registrou 89 atendimentos em hospitais de Tirana em um único dia, 61 deles de policiais. A delegação da União Europeia em Tirana condenou a escalada violenta e pediu investigação sobre denúncias de uso excessivo de força policial contra manifestantes e jornalistas.
Rama recusou renunciar. "Governos são mudados por eleições democráticas. Tivemos eleições no ano passado, não uma revolução", disse à Reuters. Ele atribuiu a violência à oposição e, depois, a "mãos estrangeiras" interessadas em travar a entrada do país na União Europeia, que ele promete para 2030. Sali Berisha, líder da oposição e ex-primeiro-ministro, rejeitou a acusação e declarou apoio aos manifestantes. Vários estudantes dizem rejeitar os dois: "Queremos que a classe política dos últimos 35 anos vá embora", disse à DW Skerdi Topalli, estudante de jornalismo de 20 anos.
Em paralelo aos protestos, investigações da procuradoria especial criada em 2019 sob pressão da União Europeia e dos Estados Unidos avançam sobre o entorno do governo. A chefe do serviço secreto, Vlora Hyseni, foi presa, acusada de ajudar o empresário Ergys Agasi, amigo pessoal de Rama, a escapar da Justiça. Agasi, por meio de seu advogado, negou as acusações e disse não ter relação com corrupção. Rama admite conhecê-lo e nega saber de transações ilegais.
Os protestos franceses começaram no fim de setembro em escolas da periferia norte de Paris, a partir da falta de professores e de instalações precárias. O pano de fundo é desigual: a França gasta 24% mais por aluno no ensino médio que a média da OCDE, mas registrou na última avaliação PISA seu pior resultado desde o início do ranking, em 2000. No ano passado, segundo o ministério, 15,4 milhões de horas de aula foram perdidas por ausências de professores não substituídas. O tamanho médio das turmas no ensino secundário chegou a 30,2 alunos em 2025, recorde na série.
O ministério prometeu 3.000 professores substitutos para as 114 escolas mais afetadas e afirmou já ter enviado 2.000. Mas a falta vai além dos professores: em Aubervilliers, uma escola com mil alunos estava sem enfermeira, relatou a professora de filosofia Cloe Jean à AFP. Em Bagnolet, a professora Fatoumata Danso disse que alguns alunos não recebem refeição completa no refeitório. "Eles simplesmente não comem."
No sábado, 17 de outubro, o movimento virou outra coisa. Cerca de 550 mil pessoas participaram de 110 marchas, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez; a central sindical CGT calculou 800 mil. Em Limoges, a prefeitura foi incendiada; em Marselha, manifestantes invadiram a sede da prefeitura; em Lyon, o posto de turismo foi queimado. Cerca de 400 pessoas foram presas. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu atribuiu a violência a "grupos de extrema esquerda" e a criminosos; o presidente Emmanuel Macron prometeu punir os responsáveis e reconheceu "falhas" na gestão policial. Na segunda-feira, o governo começou a impor toques de recolher pontuais, começando por Lille, Douai, Wattignies e Denain. Desde o início, segundo balanço divulgado pela Jovem Pan, houve ao menos 2.400 detidos, 997 policiais feridos e dois adolescentes que perderam uma das mãos.
Na quinta-feira, 15 de outubro, milhares de estudantes, docentes, sindicalistas e militantes da oposição se reuniram diante do Congresso em Buenos Aires. Foi o quinto protesto pelo financiamento universitário desde que Javier Milei assumiu, no fim de 2023. A manifestação principal foi pacífica, mas um grupo se desgarrou e atirou pedras contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo e canhões de água. Ao menos 25 pessoas foram detidas e oito policiais ficaram feridos, segundo fontes do Ministério de Segurança.
O gasto público com universidades caiu 41% em termos reais no primeiro semestre deste ano na comparação com o mesmo período de 2023, segundo o Centro de Investigação Econômica Nacional da Universidade de Buenos Aires. A lei de financiamento foi aprovada pelo Congresso, vetada por Milei e teve o veto derrubado pelos parlamentares. O governo nunca a implementou, alegando que o Congresso não indicou a fonte de recursos; o porta-voz presidencial Adrián Ravier afirmou que a lei está "suspensa" enquanto o governo recorre. Decisões judiciais, incluindo uma da Suprema Corte em junho, ordenaram o cumprimento, e um juiz federal passou a multar o governo em 100 mil pesos por dia, cerca de 70 dólares.
Milei defende seu plano: em visita a Washington, afirmou que a Argentina acumula 27 meses seguidos de crescimento. A inflação mensal caiu para cerca de 2%. Maria Teresa de Jesus, professora do departamento de química da Universidade de Buenos Aires, disse à Al Jazeera que ganha cerca de 700 dólares por mês. "Vim a este protesto como último recurso."
A referência cruzada é explícita. Em Buenos Aires, uma manifestante carregava um cartaz com os dizeres "Vamos ocupar as ruas, como na França!". Em Tirana, George, estudante de medicina de 19 anos, disse à BBC: "Fomos pacíficos por 135 dias. Agora estamos tentando fazer como na França, estamos tentando fazer uma revolução." Analistas citados pelo Guardian e pela DW apontam a cobertura internacional dos protestos franceses como um dos fatores do momento albanês.
E o fio não para aí. No mesmo sábado, houve protestos em Bruxelas, onde estudantes contestam reformas que encarecem o ensino superior e cortes orçamentários anunciados pelo primeiro-ministro Bart De Wever; em Milão e Bolonha, contra o custo de vida; e em Lisboa, onde dezenas de milhares foram às ruas por moradia, num país em que os preços dobraram desde 2017.
O que separa uma onda de protestos de uma mudança política é a resposta de cada governo ao pedido concreto, e os três têm um teste à vista. Na Albânia, acompanhe se Rama mantém a recusa em renunciar e como avançam as investigações da procuradoria especial sobre pessoas do entorno do governo, que alimentam parte da revolta. O analista Mark Marku, da Universidade de Tirana, alertou à DW que mesmo renúncia e eleições não garantem nova liderança: "Não se pode votar em um protesto."
Na França, o número a observar é simples: quantos dos 3.000 professores substitutos prometidos chegaram efetivamente às 114 escolas mais afetadas, e se os toques de recolher contêm a violência sem esvaziar as marchas pacíficas. Na Argentina, o teste é se o governo passa a cumprir a lei de financiamento universitário apesar das multas diárias e da decisão da Suprema Corte, ou se mantém o recurso.
Vale também observar se a onda continua se espalhando. Bélgica, Itália e Portugal já registraram manifestações com a mesma pauta nos mesmos dias, e a convergência entre educação, aluguel e salário é o que permite que um protesto local vire repertório em outro país.
Você já notou quais dessas queixas, custo de moradia, falta de professor ou mensalidade que sobe, aparecem nas conversas ao seu redor sem que ninguém as chame de protesto?
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